quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Artigos - 19 de Novembro

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A MÚSICA QUE UNE E QUE SEPARA
Pe. Zezinho, scj

Musica é como rosa. Bonita, mas tem espinhos. Pode encantar e pode ferir. Mas o mundo a usa desde tempos imemoriais. De sons desarticulados, mas diferenciados, acabou em harmonia, som após som, justaposição de notas e virou mensagem pensada. Salmistas, sacerdotes e reis sabiam do poder da canção. Davi tocava harpa e, mais tarde, como rei achou lugar de destaque para a música no seu governo. Tanto, que chegava a escalar pessoalmente os cantores do templo, tamanha a importância que dava aos que viviam da música. (1 Cro 933 ; 15,27) Afirma-se que Nero a usava. Os detratores acrescentam: muito mal! Hitler a usou abertamente para o mal. As cortes e os exércitos a usavam e usam. Bandas, orquestras, quartetos, corais, concertos, canto litúrgico, tudo é para divulgar, organizar, motivar e chamar. A música pode ferir, ensurdecer e desestruturar. Pode harmonizar, aclamar e até contribuir para a cura. A músico-terapia é experiência mais séria do que se imagina ou se admite.

Usam da canção as religiões; investem pesadamente nela os católicos, os evangélicos, os mais diversos credos religiosos. Algumas igrejas pentecostais gastam hoje milhões de dólares ou reais na preparação dos seus cantores. Monges, autoridades e povo cantam desde tempos imemoriais. Entre os católicos a música forjou toda uma geração de religiosos. Levantavam e ainda levantam-se de madrugada e vão dormir ao som de louvores cantados. Cantores tocam, cantam e dançam nas salas de concerto, nos templos, nas ruas. Música bem tocada chama o povo. Abre espaço para a mensagem que vem depois. E há uma canção mais agressiva que às vezes vem acompanhada de tóxicos; quem pensou em rock pensou errado. Há muita música que se executa regada de bebida e de tóxicos porque cria e serve a determinado ambientes, no mínimo suspeitos.

Cantam os da Teologia da Libertação, os da Renovação Carismática, os marianos, os arautos do Evangelho, os monges do Tibet, os Católicos, os Pentecostais, os conservadores, os progressistas, os moderados, os ecumênicos, os proselitistas. Sua música traduz o seu modo de ver a terra e o céu. Entra lá a canção que afina com seu projeto. Só ela! Raramente cantam o canto do outro. Nem sequer expõem nas suas lojas as canções do outro do outro movimento ou da outra igreja. Ciumentamente divulgam apenas os seus cantores. É que dentro da canção vai a fé ou a ideologia. Precisam dela porque além de evangelizar canção pode dar lucro! Cantam os seus e esperam que o outro os ouça. Eles preferem não ouvir quem não ora como eles.

A música une ou separa. Chama para o amor e para a guerra. Para o bem e para o mal. Feita por vozes e instrumentos, ela é também instrumento e porta-voz, de Hitler, Stalin ou de uma simples e humilde escola para cegos. Feliz é quem a usa de maneira ética! Feliz de quem não se deixa dominar ou enganar por ela! Instrumento de diálogo, não deveria cair nas mãos nem dos violentos, nem de pessoas incapazes de dialogar. Não pode ser transformada em arma, nem veículo de mentira ou de fanatismo. É divina demais para isso!


O LIVRO E O TECLADO
Pe. Zezinho, scj


Dias atrás, dizia-me um professor, afirmação confirmada por pelo menos quinze professores de outras matérias que seus alunos são rápidos de acesso e ruins de pesquisa. Vale dizer: correm para a WEB quando precisam de alguma informação, mas perderam a capacidade de manusear livros, folhear, anotar e saber o nome dos pensadores do seu tempo. Vem tudo resumido, reescrito, recortado e parcelado. O livro é inteiro, mas o verbete que buscam vem ruminado e parcelado. Parecem a dona de casa que nunca comprou um queijo, ou um pernil inteiro. Só os conhece em fatias.

Perguntei, esses dias, a acadêmicos em fim de curso os nomes de cinco filósofos e cinco teólogos modernos. Tiveram dificuldade de lembrar, embora soubessem. Admitiram que falta familiaridade com os pensadores do seu tempo. Não ficaram íntimos com os seus livros. A Internet não tem o mesmo fascínio de um livro à cabeceira ou no banco ao lado.

Existe hoje uma “geração www”. Não procuram, não manuseiam, nem pesquisam. Digitam e a Internet vomita a informação, mas vomita em fatias. Quem aposenta um livro corre o risco de perder parte significativa do mundo da cultura. Nas duas meadas, acha um fio e perde o outro.

O que dizer sobre o uso da Internet e o manuseio dos livros? Que um não deveria dispensar o outro. Há temas que não se encontra em livros e há conteúdos que não se acha na Internet. Cabe aos professores motivar o aluno a freqüentar bibliotecas tanto quanto as lan-houses ou os cafés digitais, tenham estas casas o nome que tenham. Ensine-se aos jovens que a cultura do teclado não pode substituir a do manuseio das páginas. Há que se ter familiaridade com os dois, porque nem acabou nem acabará a era do livro, venha ele como vier no futuro e pelo visto a Internet veio para ficar.

Perde, e muito, o aluno que apenas se guia pela Internet, ainda que sonora e bem mais sofisticada. Num mundo digitalizado vale lembrar que o mesmo dedo que digita é o que ainda segura a caneta, manuseia o livro impresso e a revista de banca. Cabe aos pais e professores mostrar ao aluno a importância de saber quando desligar o computador para se ligar num livro.


AMAR SOMENTE A DEUS
Pe Zezinho scj

Bonita e agradável de ouvir, há uma canção executada nas missas, que exclama: “Quero amar somente a ti” . Num exercício de súplica, pede graça de santidade e de conversão a Deus. Se o autor tivesse consultado um teólogo, um bispo, um catequista, teria sido aconselhado a mudar a letra. Motivo: a canção esconde uma insuficiência teológica. Está claro como a luz do dia nos evangelhos que um cristão não pode querer amar “somente” a Deus. É doutrina central do catecismo o amor a Deus e ao próximo. Afirmar amor somente a Deus não é erro pequeno. Jesus resume tudo nestes dois quesitos. Mateus 7,15,23; Mt 25,31-46; Mt 19, 19 ; 22,39; 25,4-45 e centenas de passagens nos evangelhos e nas epístolas deixam claro que não se pode nem se deve amar somente a Deus. Não viemos a este mundo para viver “apenas” para Deus. O próximo existe e precisa ser amado. Foi o que Francisco pediu na sua belíssima e famosa oração: esta, sim teológica e profunda. “Só em Deus encontramos refúgio”, diz o salmista. Mas não se chega a tal refúgio sem o amor ao próximo, diz Jesus.

Orar todos os dias para amar somente a Deus é orar errado, até porque não é graça que se peça. Oramos como cristãos para que o Reino de Deus venha a este mundo, mas isto só acontecerá se amarmos este mundo que Deus tanto amou a ponto de entregar seu filho a nós. (Jo13, 16) Um dos maiores tesouros da fé cristã é essa o propósito de amar a Deus acima de tudo, mas não somente a Ele: ao próximo como a nós mesmos.

Quando uma canção ou uma pregação atinge milhões de pessoas cabe ao compositor revê-la, se vem com eventual desvio ou acentua apenas uma parte da doutrina. O fiel, que nem sempre lê, não estuda e não freqüenta cursos de teologia ou de catequese pode captar a idéia errada. Pensará que é possível amar somente a Deus. E essa é uma graça que Deus não concede, nem quer nos dar. Quando seus paroquianos cantam que querem amar somente a Deus o pároco terá que explicar a eles que isso não é possível.

Não há autores perfeitos. Um bispo me pediu que revisse um Veni Creator que traduzi. Estou tentando reconstruir o texto sem imprecisões. Assim que puder, reeditarei a canção, agora corrigida. Catequistas erram, corrigem-se e reeditam.



CRISTO AOS PEDAÇOS

Pe.Zezinho, scj

Não querem Jesus, querem a parte suave de Jesus.
Não querem o Cristo, querem a parte agradável do Cristo.
Não querem a cruz, querem a parte menos dolorosa da cruz.
Não querem o manto, querem a parte mais bonita daquele manto.
Não querem a Bíblia, querem parte dela: a que prova que estão certos.
Assim agem muitos cristãos. Assim talvez nós ajamos.

Alguns cristãos continuam querendo o melhor lado do trono,
o primeiro lugar, lugar de vencedor,
o melhor lugar à mesa do Senhor,
o lugar mais visível do púlpito e do altar,
o melhor som e os melhores holofotes,
a melhor divulgação mesmo que o seu produto não seja lá tão eclesial
alguma badalada a mais do sino que toca para a sua chegada
uns segundos a mais de aplausos,
ou algum balanço a mais do turíbulo.
O perigo ronda a todos nós que lidamos com a mídia e com a multidão.

E há quem, como Simão o Mago, (At 8,9-24)
faz qualquer coisa para ser chamado de apóstolo ou de profeta.
Paga o seu caminho pela mídia, sabendo que, se não o fizer, ninguém o chamará.
Então ele se chama e se projeta.

Se não tomarmos cuidado, aparecer em nome da religião poderá tornar-se,
sem que nos demos conta, obsessão e doença:
acabamos comendo, bebendo e dormindo publicidade em nome da fé.
E pensamos que é virtude. Pode parecer zelo, mas não é.

Há um ponto em que o anúncio da fé,
que até então era coisa de missionário desapegado,
transforma-se em coisa de fanático ou em alta fonte de lucro.
Depende do conteúdo, da obsessão e da ênfase que dá ao que anuncia.
É tentação corrente em todas as igrejas.
Ate que ponto se pode cobrar pela Palavra?
Pode o empresário cobrar duas vezes mais do que o pregador?
Até que ponto se pode arrecadar e quanto a arrecadação é demais?

Quando o pregador começa a falar sempre na primeira pessoa
e deixa claro que não ouvirá a ninguém mais senão a Deus,
estamos diante não de um santo, mas de um obcecado.
Não consegue mais anunciar o Cristo sem, primeiro, se anunciar longamente.
Quando gosta muito de falar de si mesmo, de contar suas histórias pessoais
e de dizer que Jesus lhe disse ou está lhe dizendo alguma coisa
convém que os amigos o alertem, se é que ele ainda ouve algum amigo.

Serve para mim, para os outros, serve para nós que subimos ao púlpito.
Se insistirmos em ficar apenas com a parte que nos interessa,
nossa Bíblia encolherá, porque o cérebro já de há muito que encolheu!.

Enquanto não entendermos que aquele livro também fala contra nós
não o teremos entendido.
Jesus deixa claro que cobrará mais de quem diz que sabe mais sobre Ele!
(Mc 12,40) (Mt 24,24-26) Não merecem confiança.
Disse que não reconhecerá quem na terra contou vantagem e fingiu ser seu confidente e quem serviu-se do seu nome ao invés de servir o seu nome. (MT 24,5) (Mt 7,15-23)

Procura-se urgentemente uma ascese e uma sólida teologia da comunicação! Deveria ser matéria obrigatória em todos os seminários e cursos de catequese!


EU PRECISO DOS TEÓLOGOS

Pe. Zezinho, scj

Aquele senhor que, entusiasmado, disse num programa religioso de madrugada que não precisava dos livros de teólogos porque já tinha a Bíblia, disse um disparate. Nas entrelinhas disse que não precisa nem dos catecismos, nem das encíclicas, nem dos documentos, nem de catequistas, nem do papa nem dos bispos. Desprezou os pensadores e os catequistas, dando a entender que Deus lhe diz tudo quando ele lê a Bíblia. Sua frase caiu tola e contundente pelas antenas. É como se dissesse: não creio na catequese da Igreja. Praticou o pior tipo de fundamentalismo. É Deus e ele e ninguém mais.

Eu preciso da Bíblia dos mestres que a interpretam. Nenhuma sabedoria nasce da leitura, mas poucos se tornam sábios sem os livros.


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